Pare pra aprender a esperar
Corra pra não ser atropelado.
E a vida gira em contradição
Um pé em cada chão,
um coração em cada lado.
Cale-se pra poder ouvir
Publique, ou morra calado
Avance, retraia, desista
Retorne, encolha, insista
Juntando os cacos do passado.
Grite mudo, aguarde partindo
Entre a pressa e a longa espera...
Corre o tempo em lentidão
Seguindo a vida, de não em não
Na paciência de uma fera.
Poeta: sujeito que costuma comparecer aos próprios desencontros.
Manoel de Barros
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
SÓ E ENTRE
SÓ E ENTRE.
SOMENTE.
SÓ.
OLHA PRA FORA.
TODOS.
ENTRE.
OLHA PRA SI.
MENTE.
SÓ.
TIRO OS SAPATOS?
A MÁSCARA.
A ROUPA.
A ALMA.
ENTRE SÓ.
SOMENTE.
SÓ.
OLHA PRA FORA.
TODOS.
ENTRE.
OLHA PRA SI.
MENTE.
SÓ.
TIRO OS SAPATOS?
A MÁSCARA.
A ROUPA.
A ALMA.
ENTRE SÓ.
sábado, 12 de março de 2011
DAS PRISÕES
domingo, 6 de março de 2011
oito de março
No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.
Essa é a história do Dia Internacional da Mulher.
Hoje, mudou muito?
Ou a mulher, pra se sentir valorizada, precisa tirar a roupa e rebolar? Pense nisso. Olhe pro lado. Faça alguma coisa. Qualquer coisa. Só não dá mais pra fingir que não está vendo. Só não dá mais pra fingir que não faz parte disso.
Sobre mulheres e hipocrisias.

Sakineh Mohammadie Ashtiani, 42 anos, mãe de dois filhos. Crime: adultério. Irã. 2010. Aguardando julgamento. Pena de morte por apedrejamento. .
Para pensar um pouco sobre mais essa hipocrisia, John Lennon.

Para pensar um pouco sobre mais essa hipocrisia, John Lennon.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
carnaval e cinzas
...nem sempre a festa é dentro.
Segunda feira.
Quinta é carnaval em Salvador.
Mas a cidade já acordou cantando.
Pulos e urros pra fora,
uma necessidade urgente de comemorar algo
que eu não vi acontecer.
Uma alegria explosiva que não sinto.
Como se eu tivesse dormido
e perdido a passagem do cometa.
O que sinto é a maré da contramão.
Sinto o cansaço de nadar contra.
Quero mais é pular pra dentro.
Quero mais é gritar sem som.
encolher... esquecer...
e sumir.
E quando a quarta de cinzas anunciar
que é hora de emudecer a festa,
então acabou.
Quero colocar os olhos pra fora da casca
e ver que lá fora
no mundo que passa sem mim
meus trinta e um carnavais se completam.
sem festa,
sem som.
Sentido.
Os trinta e um chegam catando lata,
limpando a sujeira que ficou no chão
com o cheiro podre de xixi.
O anúncio que o carnaval morreu
pra renascer ano que vem.
Sem ter, no entanto, a certeza,
de que conseguirei renascer junto com ele.
Segunda feira.
Quinta é carnaval em Salvador.
Mas a cidade já acordou cantando.
Pulos e urros pra fora,
uma necessidade urgente de comemorar algo
que eu não vi acontecer.
Uma alegria explosiva que não sinto.
Como se eu tivesse dormido
e perdido a passagem do cometa.
O que sinto é a maré da contramão.
Sinto o cansaço de nadar contra.
Quero mais é pular pra dentro.
Quero mais é gritar sem som.
encolher... esquecer...
e sumir.
E quando a quarta de cinzas anunciar
que é hora de emudecer a festa,
então acabou.
Quero colocar os olhos pra fora da casca
e ver que lá fora
no mundo que passa sem mim
meus trinta e um carnavais se completam.
sem festa,
sem som.
Sentido.
Os trinta e um chegam catando lata,
limpando a sujeira que ficou no chão
com o cheiro podre de xixi.
O anúncio que o carnaval morreu
pra renascer ano que vem.
Sem ter, no entanto, a certeza,
de que conseguirei renascer junto com ele.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Seu filho já lhe perguntou quem é Deus?
Composição: Fábio Magalhães
Deus é o Amor, filho
E o Amor é um deus que me basta
É o que nos tem valido
No curso de uma trilha amarga
Mas há um deus que muitos tentam me vender e que não nos conduz
Justo porque, quase nunca ele nos vê, cego com a própria luz
Como acreditar nisso
Que castra, que pune e mata
Homens são homens, filho
São homens e são mais nada
Propõem ao desvalido que o seu sofrer
Seja o passe da sua salvação
Um deus de medo e castigo
E o medo pra mim é a danação
Esse é um deus que muitos tentam me vender e que não nos conduz
Justo porque, quase nunca ele nos vê, cego com a própria luz
E desconsolado...
É cá um deus que muitos tentam me vender e que não nos conduz
Justo porque, quase nunca ele nos vê, cego com a própria luz
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
De Drummond para essa nossa acomodada geração...
A FLOR E A NÁUSEA
Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. Carlos Drummond de Andrade |
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Força Estranha
Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo... brincando ao redor do caminho daquele menino,
Eu pus os meus pés no riacho, e acho que nunca os tirei. O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei.
Eu vi a mulher preparando outra pessoa... o tempo parou pra eu olhar para aquela barriga.
A vida é amiga da arte; É a parte que o sol me ensinou. O sol que atravessa essa estrada que nunca passou. Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar. Por isso é que eu canto, não posso parar. Por isso essa voz tamanha.
Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista... o tempo não pára no entanto ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo, o jogo das coisas que são. É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.
Eu vi muitos homens brigando. Ouvi seus gritos... Estive no fundo de cada vontade encoberta.
E a coisa mais certa de todas as coisas, não vale um caminho sob o sol. E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol. Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar. Por isso é que eu canto, não posso parar. Por isso essa voz tamanha.
(Força Estranha - Roberto carlos)
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Só... você.
Em época de Big Brothers, Reality Shows de roupa, cabelo, design, decoração, parto, casamento, festa de 15 anos, sexo, música... Em época de wikileaks, dos segredos de Estado revelados, cuidado ao olhar para o lado! Qualquer um com celular, pode lhe jogar na rede... Assim caminha a nossa risonha e reveladora geração...
Essa eu fiz pra todos nós, a partir das inquietações de cabeceira de Baia, e sua imensa alma questionadora... E se eu não quiser ter seus segredos revelados no meu celular? E se eu quiser guardar segredo?... E se eu quiser calar?
Só... você.
Agora, fala! Conta tudo!
Senão, conto por você!
Seu segredo já está na rede.
O seu sonho de só, ser...
Já sabemos o seu nome,
A sua cor, o seu amor...
Já sabemos dos seus sonhos,
Dos seus enganos, sua dor.
Já sabemos de você...
Conta! O que ainda não contei.
Como foi que aconteceu;
O direito que perdeu;
De não ter que contar mais nada;
E poder ser só... você.
Bianca Becker
Ps. Sobre as tais anotações de cabeceira de Baia?
Aqui, ó: http://yfrog.com/h2p59oj
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Chega Disso!
Chega dessa chaga, chega dessa forma, dessa farda
De qualquer forma chega, desse trauma de ser Cristo
Vira o disco, chega deixa disso, chega.
Desse luto nega, chega junto muda de assunto
Chega desse "sinto muito"
De tanta sala fechada
Tanta fala calada, tanta água parada
Nega chega de chá, enxagua, chega de só, sofá.
Deixa o sol chegar, chega que chega já
Chega de será? Que será?
Chega com tudo, vem com tudo
Chega se aconchega, desse nada! Chega!
Desse pobre horário nobre, desse porre
Nega chega!
Desse morre, não morre!
Chega de socorro, me socorre!
Desse morre não morre!
Chega de socorro, se socorre!
De tanta sala fechada
Tanta água parada, nega
(Alzira Espíndola e Arruda)
De qualquer forma chega, desse trauma de ser Cristo
Vira o disco, chega deixa disso, chega.
Desse luto nega, chega junto muda de assunto
Chega desse "sinto muito"
De tanta sala fechada
Tanta fala calada, tanta água parada
Nega chega de chá, enxagua, chega de só, sofá.
Deixa o sol chegar, chega que chega já
Chega de será? Que será?
Chega com tudo, vem com tudo
Chega se aconchega, desse nada! Chega!
Desse pobre horário nobre, desse porre
Nega chega!
Desse morre, não morre!
Chega de socorro, me socorre!
Desse morre não morre!
Chega de socorro, se socorre!
De tanta sala fechada
Tanta água parada, nega
(Alzira Espíndola e Arruda)
domingo, 5 de dezembro de 2010
Ode ao Prozac
Num mundo de pílulas da felicidade, anti-stress, anti tristeza...
Mundo da anestesia da vida, eis que não temos mais o direito de sermos tristes.
Não temos o direito de parar, de não querer, de não fazer, de não pensar...
No mundo da pressão e da pressa, não temos o direito de não tentar.
De parar tudo pra abraçar a dor.
Quem sofre é menos. Pois sofrer é para os fracos.
(ou para os frascos?)
Viva a alegria enjaulada num frasco de euforia!
Sofrer tornou-se feio num mundo que tem medo de chorar.
Mundo que tem medo de sangrar.
Medo de não dar conta da própria dor.
No mundo do medo, fugimos da lágrima na mesma intensidade em que perseguimos o riso.
No mundo do barulho, do axé, da ditadura alegre chamada carnaval, a dor do silêncio é feia.
E ser feio é proibido. Ser triste é proibido.
Chore, mas chore escondido, chore trancado no quarto.
Pois se lhe descobrirem chorando... Ah...........
Você só pode estar doente.
Aí o domínio de sua dor deixa de ser seu,
passa a pertencer à medicina do Prozac.
O nome da dor é Depressão.
E para Depressão? Prozac!
Não importa o porquê,
Não importam as origens...
Não importa o para que...
Dê prozac ou qualquer outra pílula mágica.
Traga o que faça rir.
Anestesie tudo que sangra.
E volte a levar a vida sorrindo.
Feliz?
Não... eu não disse isso.
Eu disse sorrindo.
Sorrindo de dor, sorrindo de perda,
sorrindo de solidão
no fundo, sorrindo de tudo.
Pra não ter tempo de lembrar
que no fundo
sangramos é disso ...
(De) Pressão.
Bianca
Mundo da anestesia da vida, eis que não temos mais o direito de sermos tristes.
Não temos o direito de parar, de não querer, de não fazer, de não pensar...
No mundo da pressão e da pressa, não temos o direito de não tentar.
De parar tudo pra abraçar a dor.
Quem sofre é menos. Pois sofrer é para os fracos.
(ou para os frascos?)
Viva a alegria enjaulada num frasco de euforia!
Sofrer tornou-se feio num mundo que tem medo de chorar.
Mundo que tem medo de sangrar.
Medo de não dar conta da própria dor.
No mundo do medo, fugimos da lágrima na mesma intensidade em que perseguimos o riso.
No mundo do barulho, do axé, da ditadura alegre chamada carnaval, a dor do silêncio é feia.
E ser feio é proibido. Ser triste é proibido.
Chore, mas chore escondido, chore trancado no quarto.
Pois se lhe descobrirem chorando... Ah...........
Você só pode estar doente.
Aí o domínio de sua dor deixa de ser seu,
passa a pertencer à medicina do Prozac.
O nome da dor é Depressão.
E para Depressão? Prozac!
Não importa o porquê,
Não importam as origens...
Não importa o para que...
Dê prozac ou qualquer outra pílula mágica.
Traga o que faça rir.
Anestesie tudo que sangra.
E volte a levar a vida sorrindo.
Feliz?
Não... eu não disse isso.
Eu disse sorrindo.
Sorrindo de dor, sorrindo de perda,
sorrindo de solidão
no fundo, sorrindo de tudo.
Pra não ter tempo de lembrar
que no fundo
sangramos é disso ...
(De) Pressão.
Bianca
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Bicho Homem
(Mauricio Baia/Xina)
Máquinas de guerra e indumentária
Pra vestir o caçador que, em vez da fera, caça
A sua própria espécie que se encontra encurralada
Pra vestir o caçador que, em vez da fera, caça
A sua própria espécie que se encontra encurralada
Desgraça muita e porrada na lata,
Sem terra, enterras na merda
E deixas quem berra na miséria, sede e fome
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Sem terra, enterras na merda
E deixas quem berra na miséria, sede e fome
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Talvez por dinheiro um dia até explodirias
O mundo inteiro e eu queria ser teu travesseiro
Quando se vês apenas como mais um a chorar
Sempre em busca do prazer do ouro
Quem te interfere perde o couro
Mas te esqueces, teu tesouro é teu coração
E todo mal que o consome
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Máquina de deuses inventados
Pra lutar contra diabos que o carregam
Pelos quintos do maior conto de fadas
Pra lutar contra diabos que o carregam
Pelos quintos do maior conto de fadas
Mascarado, sedutor, endiabrado
Enganas o mais pobre coitado
Que não percebe a grande máscara em que te escondes
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Tornando escassa nossa fauna e flora
E tudo o mais que tu exploras
Como uma cobra que devora o próprio rabo
Estás em busca do teu fim
Eu digo tudo isso por mim
Pressinto um futuro em que não haverá
Nem sombra de lembranças do teu nome
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
Bicho mau, bicho mau, bicho homem
sexta-feira, 14 de maio de 2010
A dança das chuvas...
(aos moradores do bairro Santa Maria - Aracaju)
Danças são danças... nem boas, nem más.
São pedaços de movimento soltos pelo espaço...
Danças são danças, mesmo pequenas, miúdas...
Mesmo imperceptíveis aos olhos do outro.
Mostrando-se imóveis a olho nu.
Danças dançam, mesmo quando não aparecem.
O bairro Santa Maria sequer aparece nos mapas. E a dança de seu cotidiano, invisível e diária, continua... Pé ante pé... debaixo do sol, que enfim voltou, na recontrução do que as chuvas destruíram em sua dança voraz.
No último mês trabalhei intensamente, muito intensamente no suporte aos desabrigados pelas chuvas que assolaram Aracaju. São barracos, roupas, móveis, vidas inteiras debaixo d'água ou rolando morro abaixo. É água, é lama, é gente sem ter para onde ir. São centenas de famílias com os olhos espantados carregando nos ombros o que sobrou. Correndo antes que o restante do morro desabe sob suas cabeças e corpos cansados de vida. Pessoas que levam apenas a roupa do corpo e muita fome na barriga, espremidas em abrigos coletivos à espera do sol. Pois em muitos momentos, era tudo o que se podia pedir. Sol.
O limiar entre a Psicologia e qualquer outra área humana era tão tênue quanto a diferença sutil entre a dor da fome ou da perda. É tudo dor, diziam... E era. As diversas situações onde já não havia mais nada o que fazer como Psicóloga se multiplicavam a todo instante. Mas a obrigação de fazer alguma coisa enquanto ser humano era evidente em todo momento. De Pessoa para Pessoa. De mão para mão. E de mãos dadas, à espera de um olho de sol.
Daí a falta de comunicação, daí a demora para atualização do blog. Compreendam. A chuva caiu para todos. Mas essa dança, apenas alguns tiveram que dançar.
Dançam as águas na Dança das Chuvas de Aracaju...
Nas grandes perdas, nos mínimos ganhos.
Dança o sol pra secar tudo
antes das próximas chuvas voltarem a cair.
Até perguntei à chuva:
Chuva, você é má?
Ela sorriu e respondeu:
Criança, eu sou chuva.
E chuvas precisam chover...
Bianca Becker Lepikson
Cai água, cai barraco...
Desenterra todo mundo...
Cai água, cai montanha...
E enterra quem morreu...
É sempre assim todo verão...
O tempo fecha, inunda tudo...
.jpg)
É sempre assim todo verão...
Um dia acaba o mundo todo...
Derruba o muro, o prédio podre, a casa velha...
Empurra a velha, pega a bolsa e sai batido...
(Música: Cai água, cai barraco. - Biquini Cavadão)
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