Poeta: sujeito que costuma comparecer aos próprios desencontros.

Manoel de Barros


domingo, 14 de agosto de 2011

O não-lugar

O não-lugar é uma expulsão. É um convite para sair de cena. E dói recebê-lo. Dói tanto quanto a dor de um parto, a expulsão da barriga da mãe para o mergulho num mundo desconhecido e hostil, onde agora, somos nós que fazemos nossa própria história. Nós e mais ninguém. Não sei se o bebê chora de dor de abrir o peito quando nasce, ou de medo de encarar o mundo como ele é. Pois fazer sua história com as próprias mãos, e sozinho, dói. Sair da barriga dói. Assinar a autoria de sua existência é nascer para um mundo onde já não cabe mais culpar a vida e o destino. Isso assusta. O conforto da barriga da mãe, tal qual o esconderijo seguro dos momentos de carinho, é tão melhor do que o mundo lá fora... Não dá vontade de sair. Mesmo sabendo que uma hora precisa acabar, sempre queremos que essa hora demore um pouco mais. Mas algo acontece em volta; o útero contrai, a realidade da vida mostra os dentes, chamando-nos  à razão, e aquele lugar tão seguro, tão bom e tão seu, deixa de existir pra você. Ou melhor, não deixa de existir em si, mas lhe chega a notícia de que ele não é mais seu. Torna-se um não-lugar em sua vida. Torna-se o lugar do não. Não pertence mais a você. E se por algum momento você construiu seu eu baseado nisso, o não-lugar lhe transforma num não-eu. O chão desaparece e o que sobra é vazio. Cabe somente a você juntar seus cacos e se reconstruir em silêncio. É como olhar para o espelho mágico e perguntar: Existe alguém mais bela do que eu? E ouvir como resposta que o lugar da beleza não pode mais ser ocupado por você. Seja lá quem for a mais bela, não é você. E essa ausência é uma presença de solidão doída. A solidão de sair de cena mesmo sem querer sair. A solidão da madrasta quando se deu conta que não era mais bela aos olhos do espelho. A solidão de não ser a princesa do conto de fadas. No fundo sempre buscamos o olhar do outro como um espelho que diz: Tu és a mais bela! E ser convidada a sair desse lugar, corta o sonho no meio, é o espelho desistindo de te olhar. E o não-olhar dói. Mesmo sabendo que uma hora a música precisa parar de tocar para que a dança inevitavelmente acabe. Mas receber da vida um não quando pra você a música ainda toca, parar de dançar por medo das consequências da própria dança, dói. Dói porque a dança para, mas a música ainda continua a tocar por algum tempo. Dói porque o conforto lhe expulsou e disse que ali não era mais lugar pra você. E fora da barriga, o mundo é frio e nem sempre você se sentirá belo e desejado. Dói e doerá por tanto tempo quanto a música ainda tocar, lembrando que você costumava dança-la, e que nesses momentos você era imensamente feliz. Dói e doerá tanto tempo quanto você olhar no espelho e saber que não lhe cabe mais perguntar: Espelho, espelho meu... Dói menos a despedida. Dói menos ir embora. Dói menos estar sozinho. Da dor do não-lugar, no fundo o que mais dói, é o não-olhar.


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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Menino que cresce


Acorda menino pra viver o dia.
A vida chama em suas realidades
Mas não diz o preço de estar crescido.
Deita na cama o que restou do homem.  
E suas angústias invadem a noite.
Menino que cresce não consegue dormir.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A saga do corredor



Dizia que corria o mundo atrás de ser feliz. Mas a felicidade lhe era insuportável demais em sua intensidade. Então corria mais. Para não se demorar; nem em si, nem nos outros. E antes mesmo de se tornar importante na vida de alguém, antes de querer ficar, se despedia e voltava a correr...  


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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Esconderijo seguro é barriga de mãe




"Esconderijo seguro é barriga de mãe"

Bianca Becker
2011
técnica: dedo no touchpad


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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Receita adulta


Corra apressado pra não sobrar nenhum tempo.
Trabalhe demais pra não ter que pensar.
Elimine problemas. Responda perguntas.
Desvie do espelho pra não se encarar.

Vire mais rápido as páginas do livro.
Insista nas tais decisões racionais.
Negue afetos. Aborte atitudes.
Não deixe ninguém à espera no cais.

Não ligue, escreva ou mande notícia.
Deixe o tempo passar por você.
Seja sensato. Desista. Respire.
Faça de conta que pode esquecer.

E se o escuro da noite insistir na cobrança
Do que não viveu e escolheu não sentir
Apague os momentos de sua memória
Poemas, mensagens, pessoas, histórias.
Desligue a luz, e tente dormir.


                 
                     *

terça-feira, 19 de julho de 2011

1 + 1



1 + 1
Bianca Becker
2011

técnica: dedo no touchpad


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sábado, 16 de julho de 2011

Despedida



Por respeito.
Por carinho.
Por irmandade.
Voa.





terça-feira, 12 de julho de 2011

Suspiro


O sol encontrou um suspiro de tempo pra dividir o mesmo céu com a lua. Só um suspiro. E tudo voltou a rodar. O sol voltou para o dia. A lua voltou para a noite. Assim nasceu o universo. Entre a partida e a chegada; um suspiro de tempo. 



sábado, 9 de julho de 2011

Primeira Lição



Atenta, a menina que queria dançar, 
ouviu sua primeira lição; 
Saber cair sem culpar ninguém 
e confiar em seus próprios pés para levantar. 



segunda-feira, 4 de julho de 2011

Dois pássaros



Eram dois pássaros. 
O medo de partir e o medo de ficar.
Um dia se reconheceram e se assustaram. 
Um se viu no sonho do outro.
E o mundo nunca mais girou igual.




sábado, 2 de julho de 2011

Sobre príncipes e confusões


Sou filha de uma geração que acreditava. Esperei pelo príncipe, seu cavalo branco, algumas promessas de amor e um final feliz. Cresci confundindo homens e príncipes; palavras bonitas e promessas de amor. Acreditava que finais podiam ser felizes; cresci confundindo os sinais. Hoje olho para os cavalos brancos e eles estão sós. Nem príncipe, nem promessa de amor, nem final feliz. Apenas uma insistente espera; um livro fechado e a certeza de que homens, palavras bonitas e cavalos brancos, estes sim, existem. Mas quase nada entendem de amor...    



sábado, 25 de junho de 2011

俳句 - haikai


ENTRE A CRUZ E A ESPADA;
A ESTRADA.


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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O homem e as borboletas



Dizem que colecionava afetos como quem colecio­­­­­­­­na borboletas em potes de vidro. Sabia as palavras, os sorrisos e os olhares. Gesto perfeito, borboleta no pote. Dizem que era feliz... Morreu só; olhando o mar. Cercado de borboletas coloridas. Mas com a cadeira ao lado vazia.




terça-feira, 21 de junho de 2011

vai encarar ?


 “O olho é a janela da alma, o espelho do mundo” 
(Leonardo da Vinci)


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Das regras do jogo: o impedimento



Não. Impedimento não é somente a décima primeira regra do jogo. É mais. Muito mais que um jogador mais próximo ao gol contrário do que a bola e o penúltimo adversário. Mais que uma imagem, de milímetros medidos por tira-teima. Mais do que horas polêmicas na mesa de bar, de comentários especializados se foi ou não foi, se a zaga dava condição, ou se o atacante participava mesmo da jogada... Mais que uma posição, o impedimento é um lugar. O lugar aonde não se vai, no instante em que não se pode ir. Justamente porque sua presença lá seria injusta, indefensável. Impedimento é um não. Não avance. Não entre. Não prossiga. É uma placa dizendo: Pare, respire e espere a defesa do outro chegar. Porque você é ataque agora, mas certamente será atacado em segundos. Mais do que uma regra discutível entre meninos e cerveja, o impedimento é um pacto. Um acordo entre guerreiros, de que só se avança até onde ambos concordarem existir jogo.


sábado, 18 de junho de 2011

Nudez

Um dia,  perguntou ao espelho o que ele achou de seus escritos. 
Ele precisou respirar antes de responder.
Havia lido sua alma...


Balthus, Nu Diante do Espelho, óleo, 1955

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A coleção do caçador



Cabeça de caça na parede. Mais uma história pra contar. Corria para o velho caderno e fazia um risquinho. Orgulhoso, expunha a arma, chamava os amigos, brindava a bravura; e por longos instantes era feliz. Mas quando a noite chegava, sozinho, voltava a lembrar que ele próprio, também era mais um risquinho no caderno de alguém. Calado, recolhia a festa, trancava a porta, deitava na cama, fechava os olhos. E não dormia.



segunda-feira, 13 de junho de 2011

ESPELHO


No dia seguinte, tudo amanheceu igual.
O sol, o céu, as coisas.
Menos ela.
E seu espelho sabia.
Impossível sair isento
de um encontro consigo mesmo.




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quinta-feira, 2 de junho de 2011

ALGO

Há algum motivo para as coisas acontecerem desse jeito. 
Arrastado. Enrolado. Demora, vai, volta, para, volta, vai... 
Como um alerta urgente pra parar o movimento, um pedido de respiração.
Mesmo que a vida continue avançando e atropelando tudo pela frente,
seguimos parados aqui, as vezes doidos pra partir junto com essa bagunça.
Com todas as decisões urgentes que nos aguardam sentença.
Mas uma corda nos envolve no tempo presente e nos impede de seguir mais rápido.
Amarrados aqui e agora, nos vemos obrigados a deixar as ondas continuarem seu rumo.  
Mesmo quebrando sobre nossas cabeças. Mesmo tirando nossa paz.
Impedindo nosso sono adulto, ainda que  intranqüilo, cansado e já sem sonhos.
Há algo que sopra nos ouvidos dizendo: Fica.
Talvez algo que deixamos no caminho enquanto corríamos atrás do tempo em busca do amanhã.
Algum pedaço de vida que deixamos no passado e esquecemos de olhar.
Algum detalhe do cenário, uma flor, um pôr do sol, uma dor, uma imagem.
Por mais que os ponteiros girem alucinados, 
por mais que nossa pressa nos traga desespero por não seguirmos correndo, 
Persiste algo que nos segura aqui e pede pra ser notado.
Talvez seja hora de se fechar os olhos,
e olhar.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

NA DIVISA


VIVENDO O MOMENTO EXATO
ENTRE ONTEM E AMANHÃ.
NA DIVISA 
O ANTES, O DEPOIS,
E O ENCONTRO.




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