Era apenas uma questão de olhar no espelho por cinco minutos. Não há discurso que se sustente à sua imagem refletida. Era apenas uma questão de enfrentar o que se tornou. Mas nesse mundo do sem-tempo, deu um jeito à situação. Hoje anda livre e orgulhoso numa casa sem espelhos. Nenhuma imagem. Nenhuma cobrança. Há tempos não se vê. Há tempos não se lembra. Evita sentir saudade, e segue cego discursivo.
Poeta: sujeito que costuma comparecer aos próprios desencontros.
Manoel de Barros
sábado, 11 de maio de 2013
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Canção do último dia
Viver cada dia como se fosse o último.
Olhar cada outro como se fosse irmão.
Entre o último dia e o primeiro irmão,
Sua chance de começar de novo
E fazer valer a pena.
E fazer valer a pena.
domingo, 16 de dezembro de 2012
No lado de dentro do circo
Alegria! Alegria!
Corria o palhaço por entre sorrisos.
Em luz, cambalhotas, tropeços precisos.
Alegria!
Repetia consigo no canto do circo
Palhaço sem voz, plateia vazia
Alegria...
Sem sonho e sem maquiagem
Alegria pesava a imagem
Alegria pesava a imagem
Enquanto a lágrima corria.
Alegria...
Repetia sozinho o sujeito
E quase se convecia.
No lado de dentro do circo
Palhaço tristeza é quase alegria.
.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
O primeiro vôo da águia
Águia em corpo de
borboleta.
Morre o corpo. Aos
poucos.
Pra consertar sonhos quebrados.
E acordar asas dormidas.
E morrer aos poucos
dói.
Como dói nascer pra
si.
Como dói enfrentar o céu.
Como dói enterrar
seus mortos
Seus medos, seus credos
E reaprender a voar.
*
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Conto de um silêncio
Era uma vez uma boca
Mais rápida que o pensamento.
Ouvido surdo. Palavra vomitada.
Era uma vez o dia seguinte.
Faz-de-conta de amnésia
Cabeça no travesseiro
Pesada.
...
Era uma vez uma solidão
Lembrança viva
Boca Fechada
Silêncio.
*
quinta-feira, 12 de julho de 2012
A velha da montanha
Só se envelhece com amigos, minha filha...
Se seu amor envelhecer ao seu lado
é porque se tornou seu amigo.
é porque se tornou seu amigo.
Caso contrário, vai embora sem olhar pra trás.
Se o que me pede é eternidade,
Volte para sua terra e procure seus amigos.
Só eles estarão ao seu lado quando nada mais lhe restar.
Desceu a montanha pensativa e só.
Amores, tinha vários...
Sobre dores e deuses
Se Deus existe? Claro que existe! Basta um filho doente para se convocar
todos os deuses, anjos, santos e orixás implorando para estar no lugar
dele. Não há ateísmo que se sustente a um filho doente, já dizia Rubem
Alves. Dor em filho da gente, essa é a pior dor se pode sentir.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Sobre pessoas, coisas e vazios
Quando alguém se torna desnecessário na sua vida, talvez seja hora de se perguntar em que momento essa pessoa se transformou em coisa pra você. Coisas são necessárias ou desnecessárias. Coisas têm valor de utilidade. E podem ser medidas pela quantidade de tempo que temos para dedicar-lhes atenção. Pessoas não. Pessoas são passos e presenças que se encontram pelo caminho. Mas passos, caminhos, presenças e encontros não são úteis nem necessários. São seus próprios cacos refletidos em outros olhares. São espelhos da sua presença dentro de outras histórias. E uma história é tão vazia quanto o número de presenças que viraram coisa em seu olhar e em sua experiência.
domingo, 27 de maio de 2012
A resposta
Eram muitos reunidos, olhando o céu em busca de resposta. Mas a resposta morava nos pés, no cheiro de chão, nas coisas pequenas e nos pingos de chuva. Jamais foi encontrada.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Linha e Agulha
Sentir saudade imensa de quem já nem lembra de você não é burrice,
não é doença, não é baixa autoestima. É morte cinza e sem graça. A sua morte
enquanto pessoa. Por esperar a volta de um afeto que nunca existiu. Por amar
mais alguém do que a você mesmo. Por se deixar morrer pela falta. Não é o outro
que o desconsidera e o ignora. Não é o outro um mau caráter. Não foi o outro
que o esqueceu. Foi você. Que ainda insiste em se colocar em segundo plano e esperar o que já não é. Que ainda insiste em fazer da saudade o álibi de
sua dor. Pense além da sua espera. Pare de olhar seu próprio umbigo. Faça as pazes
com o espelho e siga adiante. Porque o mundo não para pra lhe dar colo enquanto
você chora de pena de si... A vida oferece, no máximo, linha e agulha. E cabe a
você, somente a você, costurar suas próprias feridas.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
The fugitive
To escape, he used to avoid his mirror, the others voice, and speak loud in another language. Changing yes by noes, to be understood by few or just by himself. But he published his speeches in outdoors. Then everybody that was passing by, could know there was a closed talk they weren't invited to. So public and so closed... Smart fugitive! It's really easier talk by outdoors when you are afraid of the answer of another look.
domingo, 20 de maio de 2012
Aos caminhantes
Aos que passaram pela minha vida, caminhantes - os mortos, os vivos, e os morto-vivos - obrigada. Pelo que trouxeram de longe. Por tudo de mim que ousaram levar consigo. Pelo que ficou. Aos que se fizeram presença, lembrança e ausência. A vida pulsa em movimento. De chegadas e partidas. Ficar pra sempre é uma mentira. Porque "para sempre" é flor morta de espera e repouso. A essência mora no caminho, pois que muda a cada paisagem nova. E o caminho só existe quando pés se fazem passos. Aos caminhantes, meu respeito, minha saudade e minha gratidão.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Jogo de dados
Jogo dados com o
infinito.
Nem ele ganha, nem
eu.
O tempo parou o giro
do mundo
No quando
No quanto
No quase.
sábado, 12 de maio de 2012
Quase
Seguiu andando com um espinho transparente enfiado no dedo.
Pequeno, quase não se via.
Quase não incomodava.
Quase não doía.
Quase...
Era só não tocar.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Dia de Faxina
Era dia de faxina.
Pegou vassoura, balde e rodo,
Desinfetante, detergente e paciência.
Rasgou a pele do seu peito
E começou a varrer.
Era dia de faxina
Dentro.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
12 anos
Será que ele vai na sua festa
sábado? Sério? Ficou com quem? Ah, você tá brincando? Não... Desliga você
primeiro... O que? Você disse o que? Já estudou pra prova? E eu me ferrei em
Português. Não fui, estava de castigo ontem. Se minha mãe deixar, rola... Ai,
não liga não! Ele não merece! Olha, preciso desligar, minha irmã está... essa
m... de irmã! Mas olha, respondendo rapidinho a sua pergunta... Desliga que eu
desligo... Não, desliga você primeiro... O que? Quer desligar, desliga. Estou lhe obrigando a ficar aqui é? Pode desligar. Não, não estou chateado. Amanhã na
escola nem olhe na minha cara. Nada a ver, as vezes acordo meio mal. Já nem sei
se tô mais afim de ir... Você vai? Claro, que vai, né? Então, achei que você ia
desligar... Perdeu a coragem, foi? Sou o que? Repita isso, se tiver coragem!
Não acredito que você... Me esquece no grupo de estudos. Ou pra ir no shopping
com a galera. Na hora do trabalho em dupla, quero só ver... Vai fazer dupla com
aquela chata, vai... E eu o que? Como você tem coragem? Aproveita e chama
aquele seu amiguinho pra ensinar matemática pra você. Que ciúme? Se quiser,
pode ir, nem ligo, você não faz a mínima falta e... o que? Alô? Alô? Não
acredito... de novo não... de novo não... Será que um dia essa conversa vai crescer?...
(tu tu tu tu tu tu tu tu tu
tu.....)
...
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Tão forte
A porta fechada na cara bateu forte na parede.
Tão forte,
que calou a vizinhança
e estremeceu a cidade de si.
Tão forte,
que quase derrubou a casa,
quase parou o tempo,
quase o convenceu.
Tão forte,
que bateu
e voltou a abrir.
que calou a vizinhança
e estremeceu a cidade de si.
Tão forte,
que quase derrubou a casa,
quase parou o tempo,
quase o convenceu.
Tão forte,
que bateu
e voltou a abrir.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Da cegueira
Então era você, o
tempo todo ali?
Engraçado... Apressado, nem percebi.
Confundi com a paisagem morta
Engraçado... Apressado, nem percebi.
Confundi com a paisagem morta
Enquanto fechava minhas portas
Em quanto cuidava de mim.
*
Em quanto cuidava de mim.
*
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Confissão
Porque o seu silêncio me gritava tanto aos ouvidos, que não podia deixar de ouvir sua voz muda de mim. Porque o meu silêncio tinha uma escuta perversa que ela ouvia. Porque me invadia. Porque sua distância era mais próxima do que a minha. Como uma sombra, pronta a se fazer presença no momento mais inesperado. Temia o susto. Sua investida, sua fala, suas ideias batidas. Temia sua transformação em realidade. Temia a realidade que trazia nos olhos, nos ombros, nas marcas do rosto. Temia sua força disfarçada de criança. O simples. Sua escrita. Sua dança. Temia-na inteira. Porque existia em si. Porque tocava o chão com pés descalços. Temia seu jeito tão seu de ser potência e realidade num só ato. Foi por isso doutor, foi só por isso que a matei e a guardei no profundo mais escuro surdo e mudo de dentro de mim.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Balada do lado de fora
O som da conversa. A música alta. A indiferença. A alegria que não é sua. O riso solto. O abraço do amigo. O lugar-comum. O assunto trivial. A comida. Os talheres. As bocas indiferentes. As pessoas normais. Os discursos. A política. As estórias. O futebol. A bebida. A ausência. As fotos tremidas. A vaga lembrança. Os pares. Presentes. Lugares. A cadeira vazia. As velas. O dentro. Os mortos. A porta fechada na cara. O rosto. O gosto. O feio. Invisível. Bailam frio e silêncio do lado de fora da festa.
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